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Pesca da Espécie Tucunaré nas Águas Hidrelétrica de Itaipu – Relatório Orientador

por Otávio Vieira

Pesca da Espécie Tucunaré nas Águas Hidrelétrica de Itaipu – Relatório Orientador. Para o desenvolvimento de uma nação uma matriz energética forte é de grande importância, porém ele exige grandes custos ambientais.

Quando se dá a implantação de uma barragem, elas mudam completamente o ambiente aquático, que passa de um ambiente lótico (rios de fortes corredeiras). Onde por milhões de anos espécies animais e vegetais evoluíram para habitar com sucesso, os diferentes nichos ecológicos inerentes desse ambiente, para um ambiente lêntico (local de águas paradas ou com pouca correnteza) sendo esse totalmente antagônico ao ambiente natural.

Essa mudança de velocidade, também altera diversos parâmetros físico-químicos da água, incluindo a concentração de oxigênio, a turbidez e temperatura média. As barragens também contribuem para a transposição de espécies que existiam em diferentes regiões de um mesmo rio, isoladas por barreiras naturais como corredeiras e cachoeiras, locais preferidos para
a construção das mesmas.

“Espécies aquáticas, particularmente os peixes, são vulneráveis aos impactos das barragens. A barragem de Itaipu,  construída na fronteira do Paraguai com o Brasil, nos anos 1970 e 1980, resultou em uma perda de aproximadamente 70% da biodiversidade. Na barragem de Tucuruí, construída nos anos 1980 na Amazônia, houve uma queda de 60% na produtividade dos peixes”. Emilio Moran, professor de geografia e meio ambiente na Universidade Estadual de Michigan (Estados Unidos da América).

“As perdas de habitats fluviais causadas pela construção de reservatórios artificiais interrompem rotas migratórias e impactam a estrutura e composição da ictiofauna (AGOSTINHO; GOMES; PELICICE, 2007)”

Impacto das Barragens

As hidrelétricas impedem a migração para a reprodução, dos peixes. Também destroem muitos de seus locais de desova e recrutamento, além disso, os estímulos como os regimes de seca e cheia também deixam de existir. Pois o que controla o nível da água não é mais a natureza e sim a barragem e seus operadores, que liberam ou seguram a água dependendo das necessidades de produção de energia. Sendo assim muitas espécies nativas acabam por se extinguir poucos anos após esta ação antrópica. Outras espécies migram do local impactado pela represa e sua ocorrência se limita a trechos curtos, onde o rio ainda apresenta um ambiente lótico e por fim algumas poucas conseguem se adaptar ao novo ambiente.

Hidrelétrica de Itaipu e Yaciretá

Foi exatamente isso que aconteceu quando a barragem da Hidrelétrica de Itaipu foi construída. O enchimento do reservatório ocorreu em 1982, influenciando e modificando totalmente a ictiofauna na região de influência da barragem. Inclusive transpondo pelo menos 15 espécies de peixes que só existiam abaixo das sete quedas, barreira natural que foi submersa pela água. A região atingida ficou conhecida como: o lago de Itaipu, em seus mais de 170km esse lago banha diversos municípios, incluindo o de Missal.

Praticamente na mesma época da inauguração de Itaipu, em 1983 iniciou-se a construção da Hidrelétrica de Yaciretá, também no Rio Paraná. Deixando Itaipu com barragens a jusante e a montante. Sua inauguração foi em 1994. Nessa usina, que não possui canal de transposição, utilizam-se dois elevadores para transpor os peixes pela barragem. O que limita e muito a passagem dos peixes que antes das barragens se deslocavam entre o Brasil, Paraguai e Argentina.

Desde as zonas de reprodução até as zonas de alimentação, é fato conhecido que peixes reofílicos percorrem em pouco tempo a distância entre as duas barragens. Isso, comprovado por peixes que foram marcados na saída dos elevadores em Yaciretá e foram localizados no canal de Itaipu em menos de 90 dias. Dessa forma, deixando claro que os pequenos fragmentos de Rio entre elas não são o suficiente para a manutenção de uma população saudável de espécies nativas. Apesar de Itaipu ter um dos mais eficientes sistemas de transposição do mundo, o sistema da usina Paraguaio-Argentina, prejudica o deslocamento dos peixes na região, em especial a dos Siluriformes, popularmente conhecidos como “peixes de couro”.

pesca da espécie tucunaré hidrelétrica de Itaipu

O Tucunaré

A introdução do Tucunaré na região Nordeste do Brasil ocorreu no final dos anos 40 por agências governamentais (Fontenele, 1948; Fontenele e Peixoto, 1979). Posteriormente transferido para o sudeste, onde se propagou rapidamente pelos reservatórios do Alto Paraná (Agostinho e Júlio Jr, 1996), rio Grande (Gomiero e Braga, 2004), rio Doce (Godinho et al., 1994) e rio São Francisco (Pompeu e Godinho 2003). Por ser altamente prolífico e se adaptar muito bem a condições lênticas, suas populações se expandem rapidamente em reservatórios, reproduzindo principalmente na época das chuvas (Zaret, 1980). Apesar da grande preocupação em evitar a introdução de espécies exóticas em todo o mundo (Simberloff, 2003), algumas introduções de peixes feitas no passado (sejam elas, intencionais ou não) não cabem correções.

Durante a construção das barragens, os órgãos responsáveis pelas hidrelétricas, já contavam com a falta de peixes nativos no ambiente impactado. Em diversos locais ocorreu peixamentos de espécies adaptadas ao ambiente lêntico, como o Tucunaré. Nos locais onde ele foi deliberadamente introduzido, uma das hipóteses de seu sucesso é a de “pressão de propágulo” (Lockwood et al., 2005) ou esforço de introdução. Aliás, sugere que o número de indivíduos introduzidos e o número de introduções influenciariam o sucesso de um estabelecimento no ambiente pela espécie introduzida. Porém um fato é comum a todos os locais onde o Tucunaré prosperou fora de seu local de origem, é que todos sofreram grandes
ações antrópicas, principalmente barramentos, que é um dos principais fatores que contribuí para a eliminação das espécies nativas.

Rio Paraná

Fontenele (1948) e Fontenele e Peixoto (1979) também citam o alto rio Paraná como local das primeiras introduções do tucunaré no sudeste. Os resultados genéticos (de um estudo recente) demonstram concordância com esses dados, pois no reservatório de Itumbiara (alto rio Paraná) foi detectada a maior diversidade genética (3 haplótipos para C. kelberi) e esse foi, ainda, o único local onde as espécies C. kelberi e C. piquiti ocorreram em simpatria. Assim, é provável que o alto rio Paraná seja o local realizado o maior número de introduções ou onde introduziram um grande número de espécimes. Posteriormente, é possível que o alto rio Paraná tenha servido de fonte introdutória para outras bacias hidrográficas (onde foram encontrados apenas uma espécie/ haplótipo por localidade).

Oliveira et al. (2006) utilizaram análises do DNA mitocondrial para mostrar que as populações de tucunaré introduzidas na bacia do rio Paraná (UHE Itaipu, Capivari, Promissão e rio Paranapanema) eram originárias principalmente do rio Tocantins. Nesse trabalho, haplótipos do rio Amazonas também foram encontrados nessas populações, indicando a possibilidade de que tenham ocorrido múltiplas introduções de tucunaré na região.

Apesar desses dados, não se tem nem registros da introdução proposital no lago de Itaipu, a principal hipótese é a de que os peixes tenham se deslocado a partir de peixamentos realizados no estado de São Paulo ainda na década de 80.

A melhor explicação para o sucesso do Tucunaré (Cichla kelberi) na região é a da hipótese de nichos vagos, que propõe que comunidades de ambientes impactados, cuja diversidade foi reduzida devido à atividade antrópica não apresentam resistência a espécies invasoras e/ou oportunistas, mais adaptadas à nova realidade do ambiente. Assim, nichos “vagos” foram ocupados, pelo Tucunaré, provenientes da ausência das espécies nativas, que desaparecem principalmente por não conseguirem completar seu ciclo reprodutivo.

Capturas na Pesca da Espécie Tucunaré

Os primeiros relatos da captura de tucunarés no lago de Itaipu por pescadores esportivos datam de 1995. Então podemos concluir que o Tucunaré (Cichla kelberi) está a mais de 25 anos estabelecido no local. Aparecendo algumas vezes como o predador de topo da região, sendo a única opção para a pesca esportiva e o único a controlar a superpopulação das diversas
espécies de piranhas (Serrasalmus sp.) tanto nativas, como alóctones, que pela falta de predadores, coloca em risco todas as espécies já adaptadas a barragem e ao convívio com o Tucunaré.

Na maior parte dos locais de onde é nativo o Tucunaré (Cichla kelberi) é um peixe localizado no meio e não no topo da cadeia alimentar. Servindo de alimento para espécies maiores, sendo, muitas vezes a base alimentar dos grandes bagres. Pois durante a noite o tucunaré busca refúgio em regiões rasas e entra em um estado de letargia, como se estivesse “dormindo”, esse comportamento o torna presa fácil para peixes que caçam durante a noite. Sem uma grande necessidade da visão, estes peixes utilizando órgãos sensoriais, como a linha lateral e os barbilhões para encontrar suas presas. Esse comportamento de caça noturna é amplamente utilizada pelos surubis, pintados, cacharas, jaús, barbados, mandis e dezenas de outras espécies de peixes de couro nativas do rio Paraná. Mas que por culpa das barragens desapareceram das regiões alagadas, deixando o caminho livre para os peixes adaptados ao ambiente lêntico.

Hábitos Alimentares do Tucunaré

Outro fato que podemos levar em consideração são os hábitos alimentares do tucunaré, que depende de outros peixes para se alimentar. Sendo o canibalismo evitado por indivíduos da mesma espécie, apesar de faltarem estudos, isso pode ser verificado quando pescamos e encontramos peixes pequenos nos mesmos cardumes de peixes grandes. Sendo o canibalismo relatado apenas entre espécies diferentes de tucunaré, por exemplo o Tucunaré Azul (Cichla piquiti) se alimenta do Tucunaré Amarelo (Cichla kelberi) e vice-versa. Mas o Cichla piquiti evita alimentar-se de membros da mesma espécie, o mesmo acontece com o Cichla kelberi, acredita-se que o motivo para isso, é um comportamento de proteção da prole.

Quando os alevinos ainda são pequenos, ao constatar perigo, os adultos os recolhem na boca. Provavelmente os
tucunarés emitem alguma substância que não deixa os pais os engolirem. Esse também pode ser um dos motivos para que o Tucunaré Amarelo tenha se deslocado mais ao sul. Dessa forma, fugindo da concorrência com o Tucunaré Azul (Cichla piquiti) que é seu predador e não ocorre no lago de Itaipu como espécie pura.

Protuberância Cefálica ou Cupim

Outro ponto importante é que o Tucunaré necessita acumular gordura para reproduzir. Isso é notado principalmente nos machos, que na época de reprodução, apresentam uma estrutura chamada de gibosidade ou protuberância cefálica, é a partir de lá que sairão os nutrientes necessários para o período da desova e cuidados com a prole, época em que os
adultos não se alimentam.

Não sendo canibal e dependendo de outros peixes para se alimentar, quando a população de presas decai drasticamente, o tucunaré não consegue acumular gordura, e consequentemente a energia necessária para a reprodução. Promovendo naturalmente uma diminuição de indivíduos de sua população e auxiliando na recuperação da população dos peixes forrageiros que são suas presas. Seus ovos e alevinos também servem de alimento para esses pequenos peixes.

Este também é um dos motivos que levou a Florida’s Fish and Wildlife Commission (FWC), a introduzir o tucunaré nos Estados Unidos. Isso, para controlar a população de tilápias nos canais da Flórida. Peixes que mesmo não sendo predadores estavam prejudicando a população de peixes nativos por competirem por alimento. Após a introdução do tucunaré na região as populações peixes nativos voltaram a se desenvolver.

Dito isso, fica claro que a melhor opção de manejo de longa duração é por meio da evolução ou da aprendizagem. Presume-se que as espécies nativas, que ainda existem nos locais impactados pela barragem, possuem uma resposta à predação por meio do manejo e aprendizagem. Assim, podem coexistir com o Tucunaré, vide o longo tempo de convívio entre as mesmas e a falta de seus antigos predadores.

Essa opção é a mais viável para aplicar nas populações alóctones cuja erradicação seja econômica ou biologicamente inviável. Como é caso das populações do Tucunaré no lago de Itaipu.

Necessidade de Preservação do Tucunaré.

Sendo pescador do lago de Itaipu desde 2005, é fato que a população de tucunarés no lado brasileiro do lago vem decaindo ano após ano. Aliás, isso se deve principalmente a pesca amadora sem controle.

Toneladas de peixes são mortos, sem benefício econômico para os municípios lindeiros, por pescadores amadores descredenciados. Consomem e vendem os peixes sem inspeção ou qualquer controle. Prejudicando os pescadores artesanais e esportivos, eles se concentram na pesca do tucunaré principalmente na época de reprodução da espécie, que no lago de Itaipu coincide com o fechamento da pesca para a piracema. Por ser alóctone o abate do tucunaré é liberado nessa época, justamente quando estão nos ninhos ou cuidando da prole, neste momento eles se tornam presas fáceis para os praticantes da pesca predatória.

Os pescadores amadores utilizam, apetrechos como, lanças, fisgas, arpões, durante a pesca noturna, caniços, catueiros e espinheis com iscas vivas como camarões e lambaris. Capturando uma grande quantidade de indivíduos de tamanho pequeno, sem valor comercial. Aliás, são abatidos e, muitas vezes, sequer consumidos, são jogados fora como lixo ou apodrecem esquecidos em freezers.

Outro ponto de controle e redução da população é a ocorrência de mortandade natural da espécie durante os invernos mais rigorosos. Aliás, isso também evita a superpopulação de tucunarés na região.

Turismo da Pesca Esportiva

A diminuição nos estoques tem tornado os munícipios lindeiros cada vez menos atraentes para os praticantes da pesca esportiva. Dessa forma, reduzindo o número de turistas e inviabilizando investimentos no setor.

A lei de regulamentação da pesca é necessária para a recuperação das populações de Tucunaré aos patamares que existiam anteriormente. Além  da segurança jurídica para investimentos em turismo de pesca esportiva no lago de Itaipu.

Segundo levantamento do Sebrae, o número de praticantes do pesque-solte no Brasil cresceu de 4 milhões para 8 milhões. Dessa forma, sendo um mercado em expansão e uma atividade de baixo impacto ambiental.

O Ministério do Meio Ambiente do Brasil estima que a pesca esportiva gere diretamente US $ 24 bilhões por ano nos Estados Unidos; US $ 8,2 bilhões por ano na Alemanha; US$ 6,2 bilhões na Inglaterra e País de Gales; US$ 5 bilhões no Canadá e apenas US$ 0,5 bilhão no Brasil. Isso devido à falta de leis que protejam os peixes esportivos. Principalmente os que estão próximos aos grandes centros. Dessa forma, tornando as viagens de pesca esportiva no Brasil extremamente caras, tornando as uma opção de lazer para poucos.

Tucunaré Opção Turística para a Pesca Esportiva

Para exemplo de comparação, o trecho do Rio Paraná que ainda não é afetado pelas barragens, que compreende desde a barragem de Yaciretá até sua Foz no Rio da Prata, é um dos locais mais procurados do mundo para os praticantes da pesca esportiva. Principalmente no território Argentino onde a adoção da cota zero recuperou os estoques pesqueiros. Gerando quase 1 Bilhão de dólares anuais com turismo de pesca, sendo que o maior número de turistas é brasileiro.

Tendo como principais espécies alvo o Dourado e Pintado, peixes que são nativos e eram abundantes na região de Missal antes das barragens. Por isso é importante o esforço para conservar o que a natureza ainda nos oferece hoje. Mesmo que o tucunaré, possa ter contribuído de alguma forma, para acelerar o desaparecimento ou o declínio de espécies nativas causados pela barragem. Hoje ele é a única opção turística para a pesca esportiva na região, e principalmente, sua eliminação não
acarretará na recuperação dos estoques de peixes nativos, pois ele é um impacto secundário e não o principal.

Consequência da Não Preservação

Se nada for feito, a hipótese mais provável é que tenhamos um local repleto de piranhas, como é o Rio Jacuí no rio Grande do Sul. Onde as 3 barragens construídas em seu leito e a pesca predatória, eliminaram os Dourados, Pintados e outros peixes que continham a explosão populacional da espécie. Aliás, como as baixas temperaturas não permitem a introdução do tucunaré as barragens da região, toda a cadeia trófica foi afetada e a situação só tende a piorar, restando apenas essa espécie (Serrasalmus maculatus) que também ocorre no lago de Itaipu.

Atualmente a superpopulação de piranhas tem prejudicado a pesca profissional artesanal e o turismo, pois as piranhas se alimentam dos peixes capturados em redes e peixes mordidos podem ser comercializados. Elas não têm valor comercial e atacam banhistas que frequentam as praias de água doce da região, fato que também ocorre em Itaipu.

Outro fato a ser considerado é, caso a lei de regulamentação, se demonstre eficaz na recuperação das populações de Tucunaré no município ela possa ser flexibilizada. Dessa forma, permitindo uma nova cota de abate da espécie, promovendo o manejo sustentável da população.

Elaboração: Alexandre Rodrigues – Engenheiro de Pesca, formado pela UNIOESTE – Campus Toledo/PR – Reconhecido pelo Decreto nº 7059 de 12/05/2010.

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Informações sobre o Tucunaré no Wikipédia

Veja também: Tucunaré Azul: Dicas do comportamento e táticas de pesca dessa espécie

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1 comentário

Romário do Nascimento Junior 5 de abril de 2022 - 17:29

Muito importante esse relatório sou de Foz do Iguaçu prático pesca esportiva no Lago de Itaipu e sabemos o quanto essa espécie é importante pra própria economia do nosso município e de vários outros, o Blog Pesca Gerais está de parabéns e meus parabéns por esse belíssimo relatório Engenheiro Alexandre Rodrigues.

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